Este artigo não pretende ser um refutação exaustiva da teoria do filósofo Luc Ferry. Humildemente buscamos esclarecer algumas de suas principais idéias contidas numa entrevista cedida a Veja, com o fim de esclarecer os católicos sobre algumas de suas idéias anti-cristãs que devem ser rejeitadas pelos mesmos.
Ele afirma que:
“O homem abriu mão da vida por três grandes causas através dos tempos: por Deus, pela pátria e pelas revoluções… Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita morrer por um deus, um país ou um ideal… A família é a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual todos nós, ocidentais, aceitaríamos morrer, se preciso.”
O erro do seu pensamento, para nós católicos, é este: segundo a Doutrina Católica a família não “se torna” sagrada e sim nasce sagrada pois nasce como uma instituição querida por Deus quando Ele diz: “Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne” (Gn 2, 24). A mesma Doutrina é reafirmada na plenitude dos tempos com as palavras do Redentor do homem: “no princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Mc 10, 6-9). Nenhum dos câmbios produzidos em dois mil anos, seja positivo ou negativo, irá mudar esta verdade.
Então, se esta verdade é bem entendida, os pais estão chamados a dar a vida pelo seu filho no sentido mais pleno do amor, isto é, a doação total de si ao outro. O amor dos pais, como ele mesmo afirma “é instintivo e descrito desde a Antiguidade em mitos e lendas”. Mais do que instintivo, nós diríamos, é plenamente humano.
Luc Ferry ainda diz:
“Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar transcender espiritualmente. As crianças substituíram as instituições despedaçadas que citei acima [deus, país ou ideal]“
Quando o Sr. Luc Ferry afirma isso e não faz nenhum juízo moral, aí está o problema. Quando não se conhece e se ama o Deus verdadeiro, “algo/alguém” irá “automáticamente” tentar preencher este vazio e irá requerer a “adoração” que é devida só a Deus. Neste caso, por culpa dos pais, ao perderem a consciência de sua missão de ser o ‘primeiros educadores’ dos seus filhos, terminam por se transformar em marionetes nas mãos de suas crianças, que a sua vez se tornam “deuses” mimados, justamente para preencher esta lacuna dos pais imaturos. É um círculo vicioso onde as crianças, como sempre, são as maiores vítimas. Como elas irão crescer sem nenhuma autoridade (paterna e materna) que lhes ensine, que lhes digam “sim” e “não” de forma a lhes mostrar o caminho? Como usar uma criança, um filho, como um meio de “transcender espiritualmente”? Os filhos são vítimas, e seus pais buscam neles algo que só Deus pode dar: a salvação.
Eis as sábias palavras do Vigário de Cristo na Terra:
“Impele-nos também uma preocupação, isto é, a percepção da que chamamos “uma grande emergência educativa”. Educar nunca foi fácil e hoje parece tornar-se cada vez mais difícil: por isso não poucos pais e professores sentem-se tentados a renunciar à sua tarefa, e até já não conseguem compreender qual é, verdadeiramente, a missão que lhe é confiada. De fato, demasiadas incertezas e dúvidas circulam na nossa sociedade e na nossa cultura, demasiadas imagens deformadas são veiculadas pelos meios de comunicação social. Assim, torna-se difícil propor às novas gerações algo válido e certo, regras comportamentais e objetivos pelos quais mereça despender a própria vida. Mas estamos aqui hoje também e sobretudo porque nos sentimos amparados por uma grande esperança e por uma forte confiança: ou seja, pela certeza de que aquele “sim” claro e definitivo, que Deus disse à família humana em Jesus Cristo (cf. 2 Cor 1, 19-20), é válido também para os nossos adolescentes e jovens, para as crianças que hoje se apresentam à vida. Por isso também no nosso tempo educar para o bem é possível, é uma paixão que devemos trazer no coração, é um empreendimento comum ao qual todos são chamados a dar a sua contribuição.”
O Sr. Luc Ferry continua:
“A partir do momento em que a união entre duas pessoas se ampara apenas na lógica do sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha.”
Entre sentimento e amor existe um abismo. Sentimento vem e vai. Mas igualar o amor ao sentimento é um erro básico de definição de conceito. O amor, já dizia o grande filósofo dominicano St. Tomas de Aquino, é um “ato da vontade de querer o bem do outro”: o amor não nasce do sentimento e sim da vontade. Justamente por isso é possível amar até o fim, e o casamento se fundamenta justamente no amor, não no sentimento. Amar é uma escolha e como ensina um homem que soube amar: “a pessoa que não se decide a amar para sempre irá ver que é muito difícil amar nem que seja por um dia” (JPII)
Frente à pergunta da Revista “uma sociedade sem religiões e sem ideologias, como o senhor a vislumbra, não é contrária à índole humana?”, o Sr. Luc responde:
“De jeito nenhum. Muitas religiões e ideologias fizeram as sociedades e os indivíduos sacrificar-se por ideais inúteis… Não tenho nenhuma saudade dos extremistas religiosos ou nacionalistas que provocaram a morte de 50 milhões de pessoas na II Guerra”
Igualar todas religiões e ideologias é falta de juízo crítico. Culpar todas as religiões pelos atos extremistas é não reconhecer a história e sim olhar só aquilo que lhe convém. É simplesmente impossível ficar cego frente a milhares de santos que a Santa Igreja Católica gerou para a história, com seus exemplos que inspiram a muitos a sacrificarem a vida sim, mas com plena maturidade do que isso significa. Justamente nestas guerras atrozes onde milhões matam por ídolos falsos, não se menciona o St. Maximiliano Kolbe que literalmente deu a sua vida por um pai de família? E outro, ainda entre nós, Padre Ladislau, sacerdote salesiano com 94 anos, ex-prisioneiro de guerra, que só inunda com a paz a todos que o visitam, mesmo depois de tantas atrocidades vividas por ele? Muito simplista, além de falaz, esta teoria e por isso falta à verdade.
“As principais correntes filosóficas são, na verdade, grandes doutrinas de salvação, assim como as religiões. A diferença entre religião e filosofia é que a primeira tenta encontrar a paz interior e a felicidade através da fé, enquanto a outra busca o mesmo pela razão, sem a intervenção de um deus.”
Isso é a teoria do Sr. Luc Ferry. A Sã Doutrina nos diz algo diferente e por ter sua fonte em Deus, é um ensinamento que de fato satisfaz a sede da salvação que ele cita. E o Santo Padre Bento XVI meditando a relação da fé e razão em St. Agostinho, nos dá a resposta:
“A inteligibilidade da criação não é fruto do esforço do cientista, mas condição que se lhe oferece para lhe permitir descobrir a verdade presente nela. “O raciocínio não cria estas verdades continua a sua reflexão Santo Agostinho mas descobre-as. Por isso, elas subsistem por si só antes de serem descobertas, e uma vez descobertas, renovam-se” [e além disso a razão] “sente e descobre que, além daquilo que já alcançou e conquistou, existe uma verdade que jamais poderá descobrir se começar a partir dela mesma, mas que poderá receber como dádiva gratuita. A verdade da Revelação não se sobrepõe àquela verdade alcançada pela razão; pelo contrário, purifica a razão e eleva-a, permitindo-lhe assim dilatar os seus próprios espaços para se inserir num campo de pesquisa insondável, como o próprio mistério.”
E para terminar o Sr. Luc Ferry afirma:
“Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião não é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura.”
Será que a religião não é suficiente? Será que o homem -finito por natureza – é capaz de preencher a sede infinita do seu coração? Deus é o único que pode dar -mais do que abundantemente – as repostas que o homem procura e saciar plenamente sua sede. E a Igreja católica, instituída como instrumento de salvação pelo Filho Deus, é a única instituição divina e que por tanto guarda e aprofunda o deposito da fé a ela confiado, transmitindo com integridade esta verdade.
Mas como o exemplo tem o poder de inspirar, termino com estas belíssimas e profundíssimas palavras do Papa Bento que se referem não a uma teoria filosófica, mas com a biografia de um santo filósofo:
“Agostinho desde criança, havia aprendido de sua mãe, Mônica, a fé católica. Mas sendo adolescente, havia abandonado esta fé porque já não conseguia ver sua racionalidade e não queria uma religião que não fosse expressão da razão, ou seja, da verdade. Sua sede de verdade era radical e o levou a afastar-se da fé católica. Mas sua radicalidade era tal que não podia contentar-se com filosofias que não chegassem à própria verdade, que não chegassem até Deus. E a um Deus que não fosse só uma hipótese última cosmológica, mas que fosse o verdadeiro Deus, o Deus que dá a vida e que entra em nossa própria vida. Deste modo, todo o itinerário intelectual e espiritual de Santo Agostinho constitui um modelo válido também hoje na relação entre fé e razão, tema não só para homens crentes, mas para todo homem que busca a verdade, tema central para o equilíbrio e o destino de todo o ser humano.
A verdadeira religião é aquela que liga o homem com o seu Criador e continuando com as palavras do Papa Bento XVI:
“O homem é «um grande enigma» (magna quaestio) e «um grande abismo» (grande profundum), enigma e abismo que só Cristo ilumina e preenche. Isto é importante: quem está longe de Deus também está longe de si mesmo, alienado de si mesmo, e só pode encontrar a si se se encontra com Deus. Deste modo, consegue chegar a seu verdadeiro eu, sua verdadeira identidade.”
Que nós, os católicos, sejamos audazes na hora de defender a integridade e pureza da nossa fé, como os autores são audazes para defender sua teorias!



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Muito bem argumentado, indicarei a outros este artigo. Deus abençoe!
Estimado Cleiton, obrigada pela divulgação. Precisamos mostrar que as mentiras ditas pela Veja podem e devem ser refutadas pela verdade.
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Deus lhe pague!
PAX
JM